sábado, 10 de setembro de 2011

a receita

Aos arrogantes uma colher de humildade quatro vezes ao dia, aos hipócritas uma dose de sinceridade de oito em oito horas, aos egoístas  uma colher de sopa de compaixão quatro vezes ao dia,  aos antipáticos um comprimido que seja por semana de simpatia, ao nosso povo algumas pitadas de dúvidas sobre suas escolhas passadas e uma xícara que seja de sabedoria, para ser bebida antes de colocar no poder quem usará ele apenas em seu próprio beneficio, não em prol de nossa terra nossos bosques, nossa bandeira, nosso verde, nosso céu azul, nossas mães, nosso filhos, nossos pais,  nosso país.   


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A despedida

Uma hora cai como uma luva outra bem a tardinha,

Era tarde eu tinha sede ela fome mas me servia,

Uma hora escorregou para meu canto, ela puxou para o dela, ficou uma lágrima nos olhos e o dia virou uma grande nuvem cinza,

Era tarde e chovia, era cedo e nem estrela tinha.

 Ela caiu do telhado, eu desabei no outro dia.

Veio como rosa, eu colhi com seio passado e espinho, foram minhas mãos, pois meus dedos  eu sentia, quando eu tranquei a porta como se nada mais queria,

ela deixou a boneca arrumou outro brinquedo,

Ficou no quarto grudado na parede o som do seu sorriso e o sonho dormindo no travesseiro.

Eu fiz a mala, ela fez o dever de casa, eu saí pela porta mas sem antes pagar o que eu devia,

 Era minha vez eu pedi licença, ela correu na frente,

eu fiquei preso no elevador,  ela com pressa puxou outra casa e  que tudo dela dentro tinha.

Talvez fosse desculpa ou quem sabe culpa, uns disseram que era falta de dialogo, só ninguém sabia que ele não mais existia.

Levei na mala tudo que eu tinha,

duas ou três calças um retrato dela e umas camisas,

A roupa dela ficou no varal e cada sonho seu  guardado numa gaveta que só eu mexia.

Era uma mão e talvez fosse a única.

Ela ficou no retrovisor,

enquanto eu explicava pra mim mesmo porque eu sempre ia aos mesmos lugares sem querer saber se ela queria ir ao cabeleireiro ou a sorveteria.

Era de madrugada acordei sem café me sobrou o cigarro mas o calor o fogo e sol que eu usava eram tudo dela  e eu juro que não sabia.

domingo, 4 de setembro de 2011

coisas simples

É com frio que faço fogo, 
é com sede que bebo água, 
é com fome que mastigo o pão, 
nem toda esmola deixa de ter um preço. 
é com esperanças que colocamos os pés no outro dia. 
é com os olhos que acaricio as cores, 
é com as mãos que cultivo as flores, 
é sem luz que acendo a vela, 
é com muito sono que apago ela com um sopro. 
é com uma página nua na mão que escrevemos o futuro. 
Nem todo amor pede uma cama, 
nem todo beijo é por desejo. 
Escrevo raso, 
evitando a profundidade evito de me afogar, 
e o dia se aquieta, 
como uma criança depois de ser amamentada.                           

no desfiladeiro


No desfiladeiro  dezembros caídos no chão
poças de água benta, falta fé sobra sede,
no canto a cadeira quebrada de frente pra ferrugem da porta
cansaço sem lugar pra sentar e na parede sem reboco até a sombra sua,
No desfiladeiro umas idéias vingando
alguns atos rasgados pelo chão,
e sonhos pendurados em varais para secar,
e preso de um galho a outro numa rede a esperança descansa,
no desfiladeiro
passagens secretas cofres guardando vendavais,
democracia a venda em barracas de camelos,
era quase algo que podia se desenhar se houvesse papel e tinta.
A palavra despencava em conta gotas em meio a ervas daninhas,
e a verdade de perto cheirava a coisa que não era usada, a coisa que recém tinha sido retirada da prateleira do supermercado,
No desfiladeiro dançavam as bailarinas empurradas em direção ao precipício seria lindo se não fosse suicídio,
seria questionável se não fosse por livre arbítrio,
No desfiladeiro,
fantasmas faziam curativo nas múmias e passavam o aspirador de pó no museu, seu lar ou sua prisão, jamais saberemos,
e o cheiro de passado intoxicava e de longe eu via o presente nadando contra a correnteza, cardumes de dias afogados,
futuro com medo de não existir, se da margem não viesse um bote salva vidas,
era quase confuso se o dedo não tocasse delete,
era provável que tudo sobrevivesse se o mesmo dedo optasse por apertar next.
Chuva de ácidos derretem parques de diversões, a negligência tem mais valor que a vida de um homem ou uma criança, próximo dali
pousam nas árvores velhas o corvo e o abutre a hipocrisia e  cheiro insuportável da injustiça.
No desfiladeiro
Desfilam países, bandeiras, soldados com os pés acorrentados em tanques de guerra, no peito orgulhoso dos generais medalhas, no dos soldados cicatrizes,
No desfiladeiro,
O jumento pasta em grama verde, e como sábio que é, de vez em quando move as orelhas pra espantar uma ou outra mosca.
No desfiladeiro, uma casa branca, com uma só peça, uma sala com uma mesa de madeira no centro, ali se embriagavam do mesmo  vinho, padres, pastores, fadas e bruxas sobre o olhar de desprezo de cristo pregado na cruz e também na parede, fé vendida a prazo  mas de preferência em débitos a vista em sua conta bancária,
No desfiladeiro,
Passeiam de mãos dadas a negligência o comodismo, a alienação e  um país vestido de mendigo.   

o grito



Toque de recolher na praça central, os cães uivam, 
melodia em que dançam as viaturas policiais. 
Meninos e meninas disputam com os bêbados e mendigos as sobras de alimento jogadas nas latas de lixo.Quando noite se encolhem nas calçadas e dormem enrolados em trapos e jornais. 
Na hora em que tudo repousa,todo movimento se desfaz,a luz se encolhe frente as trevas,tomando o tamanho de um foco de luz, lugar onde os insetos se debatem cegos até a exaustão, até o último voo. Um grito rasga a noite, desfazendo a trégua entre a ordem e o caos, tendo como protagonistas duas vítimas, o parasita e o inocente, um encontro proporcionado pelo sistema falho, negligente a que estamos submetidos desde um tempo em que o futuro era promessa,não ruínas. 
Um tempo em que as armas foram usadas para a independência de um território e a edificação de uma próspera nação. Hoje estas armas são usadas com outros propósitos, o da sobrevivência. Um tiro,um grito,um hino de uma decadente nação. A esmola negada durante o dia toma forma de crime durante a noite, uma dose a mais de alienação a medida exata para escaparmos do suicídio, os meios não justificam os fins,mas amenizam um pouco a fome dos filhos desta próspera nação. 
Toque de recolher na praça outonal, crianças festejam a esmola encontrada no bolso de um corpo sem vida,na esquina da avenida chamada PAZ. 
(corpo encontrado morto próximo a praça central,aparentando trinta anos,não portando documentos de identificação...). 
O radio aos berros anuncia antes de mandar tirar os pés do chão ao som de Ivete Sangalo. 
As sete horas pelo horário de Brasilia,hora em que os sinos da catedral anunciam que é hora das crianças irem para a escola.