domingo, 4 de setembro de 2011

no desfiladeiro


No desfiladeiro  dezembros caídos no chão
poças de água benta, falta fé sobra sede,
no canto a cadeira quebrada de frente pra ferrugem da porta
cansaço sem lugar pra sentar e na parede sem reboco até a sombra sua,
No desfiladeiro umas idéias vingando
alguns atos rasgados pelo chão,
e sonhos pendurados em varais para secar,
e preso de um galho a outro numa rede a esperança descansa,
no desfiladeiro
passagens secretas cofres guardando vendavais,
democracia a venda em barracas de camelos,
era quase algo que podia se desenhar se houvesse papel e tinta.
A palavra despencava em conta gotas em meio a ervas daninhas,
e a verdade de perto cheirava a coisa que não era usada, a coisa que recém tinha sido retirada da prateleira do supermercado,
No desfiladeiro dançavam as bailarinas empurradas em direção ao precipício seria lindo se não fosse suicídio,
seria questionável se não fosse por livre arbítrio,
No desfiladeiro,
fantasmas faziam curativo nas múmias e passavam o aspirador de pó no museu, seu lar ou sua prisão, jamais saberemos,
e o cheiro de passado intoxicava e de longe eu via o presente nadando contra a correnteza, cardumes de dias afogados,
futuro com medo de não existir, se da margem não viesse um bote salva vidas,
era quase confuso se o dedo não tocasse delete,
era provável que tudo sobrevivesse se o mesmo dedo optasse por apertar next.
Chuva de ácidos derretem parques de diversões, a negligência tem mais valor que a vida de um homem ou uma criança, próximo dali
pousam nas árvores velhas o corvo e o abutre a hipocrisia e  cheiro insuportável da injustiça.
No desfiladeiro
Desfilam países, bandeiras, soldados com os pés acorrentados em tanques de guerra, no peito orgulhoso dos generais medalhas, no dos soldados cicatrizes,
No desfiladeiro,
O jumento pasta em grama verde, e como sábio que é, de vez em quando move as orelhas pra espantar uma ou outra mosca.
No desfiladeiro, uma casa branca, com uma só peça, uma sala com uma mesa de madeira no centro, ali se embriagavam do mesmo  vinho, padres, pastores, fadas e bruxas sobre o olhar de desprezo de cristo pregado na cruz e também na parede, fé vendida a prazo  mas de preferência em débitos a vista em sua conta bancária,
No desfiladeiro,
Passeiam de mãos dadas a negligência o comodismo, a alienação e  um país vestido de mendigo.   

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